Sábado, 20 de Janeiro de 2007

Gisela Nunes - Movimento Sim Esclarecido

Os artigos expressos neste blog não reproduzem a posição do Movimento. Trata-se apenas de uma espaço de difusão de várias correntes de opinião quer do Sim ou do Não.

Agradeço o convite. Faço votos para que vão passando por aqui. Aqui fica a minha contribuição.

 

A questão, e julgo que isto é já ponto assente, há muito que deixou de ser "eu sou contra o aborto" vs "eu sou a favor do aborto". Penso que, excepções à parte, não há ninguém que seja a favor do aborto e que não fique sensibilizado pelo facto de inviabilizar um feto.

Uns dirão que mais do que um feto é uma vida/um ser/uma criança, e aí começa uma outra discussão sobre se às 10 semanas existe vida ou não. Onde começa a vida? Sabe-se que, medicamente não existe consciência/actividade cerebral às 10 semanas. Para decidir o óbito a cessação da actividade cerebral é o ponto de referência. Mas o inicio da vida eu posso considerar que tem lugar quando bate o coração ou até na fecundação. Mas, mais uma vez, à boa maneira portuguesa de discutir tudo, dispersar e acabar por não discutir nada, estaríamos a divagar ao entrar nessas questões que, sendo pouco sustentadas quer pelo Sim quer pelo Não, invariavelmente caem no campo religioso/filosófico, e claro está, torna-se difícil obter um consenso.

Se reparem, a questão que temos que responder no referendo daqui a um mês não é bem esta. Esta e outras interrogações que, naturalmente, pela sua pertinência, possam surgir em torno do tema, são interrogações de sempre, mas não devem ser chamadas a este referendo.

 

Quais devem ser então as questões em causa na hora de deliberar sobre a posição a tomar?

 

 

 Por outras palavras, o estado quer saber se concordamos que as mulheres deixem de a ir a tribunal («Concorda com a despenalização…»), se nos importamos com o risco de vida e com as condições a que são sujeitas as mulheres que recorrem ou são empurradas a fazer um aborto («em estabelecimento de saúde») e se queremos acabar com a clandestinidade («legalmente autorizado»). Sim/Não. Nada mais.

Depois, temos ainda que nos interrogar: a actual lei protege a vida?

 

Em primeiro lugar não protege a vida das mulheres. O que, convenhamos, resulta nalguma incoerência. É, supostamente, uma lei "pró-vida" para o fetos e "pró-risco-de-vida" para   as mulheres.

 

Mas será mesmo "pró-vida" para o feto? Na minha opinião não. E passo a explicar:

- Bem sabemos que quando alguém faz um aborto está completamente sozinha neste acto. Ou pior ainda poderá estar a ser empurrada ou encorajada. Porque o faz em segredo não tem ninguém para a dissuadir. Não é com certeza a parteira de vão de escada e o médico, que vão lucrar com o aborto, que lhe vão dizer – "Olhe veja lá, não acha melhor ponderar, as consequências são estas estas e estas, tanto a nível físico como psicológico". Ao mesmo tempo não existe ninguém que garanta apoio social se o motivo for carência económica.

 

- Somente mudando a actual lei é possível que a mulher que pensou em fazer um aborto, pelas mais variadas razões (egoístas, económicas, pressão social, emprego, etc), vá até a um hospital público dizer, sem receios de denúncia, o que pretende fazer e porque o pretende fazer. Desta forma a mulher não estará sozinha na sua decisão. Confrontada com outras pessoas (médicos, psicólogos, assistentes sociais) e falando do assunto abertamente poderá encontrar soluções alternativas , mudar de ideia, cair em si e ver que está a cometer um erro etc.

 

- Por outro lado, os médicos vão poder verificar se feto tem menos de 10 semanas (sendo clandestino sabe Deus o que é feito!)

 

Por isso, uma lei "pró-vida" é apenas aquela que, aproximando a mulher do SNS, permite diminuir o número de fetos mortos e o número de mulheres que correm risco de vida.

 

Assim, de uma forma resumida, o referendo vai por à prova a nossa noção de igualdade, democracia, limites de estado, saúde pública, solidariedade, respeito pela autonomia moral e responsabilidade. Resta saber se nós,  povo português, estaremos à altura de prova tão exigente. Tenho esperança que SIM.

                             Gisela Nunes - Movimento Sim Esclarecido


Publicado por mdl às 00:42
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2 comentários:
De bernas a 23 de Janeiro de 2007 às 00:54
Cara Gisela. Bom dia! Pare uma hora verdadeiramente nos seus argumentos, mas pare mesmo, pense e pense bem, tenho a certeza que pensará doutro modo. Nenhum dos seus argumentos revela sabedoria nem justiça para serem aplicados aquilo que pretendo. Acredito que esteja bem intencionada, por isso, sugiro que use a razao e a justiça.


De Ana a 11 de Fevereiro de 2007 às 20:13
FINALMENTE ACABOU A HIPOCRISIA NESTE PAÍS!!!
OBRIGADA A TODOS PELA LIÇÃO DE DEMOCRACIA!!!
SOU MULHER E SOU LIVRE...
AGORA TEMOS O DIREITO DE ESCOLHER...
SEM REPRESÁLIAS...
SEM CORRER RISCOS DE VIDA...
SER MÃE DEVE SER SEMPRE UMA OPÇÃO E NÃO UMA OBRIGAÇÃO...
HOJE ESTOU MUITO FELIZ E TENHO ORGULHO DE SER PORTUGUESA!!!


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